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30 de jul. de 2020

Será que defeito virou moda


Começo esta crônica afirmando que respeito o gosto pessoal, afinal como diz o velho ditado, “o que seria do vermelho se todos gostassem do amarelo “? Isto é uma verdade em todos os aspectos da vida, desde nossas preferências por certos alimentos, passando para coisas mais simples como raças de cães, aromas de perfumes, modelos de carro, tipo de esporte, e até algo mais complexo como o estilo/personalidade das pessoas com quem nos relacionamos, e claro que o vinho não podia ficar fora disto. Como jornalista especializado tenho a oportunidade de provar todas as castas e os estilos, e nas degustações que realizo para a Go Where, ou mesmo nas nossas confrarias, sempre analiso os exemplares pela sua complexidade e harmonia. Para mim é fundamental que o gosto pessoal não deva interferir nestas análises, e afirmo que, em muitas ocasiões, tecnicamente pontuei vinhos com notas superiores a outros vinhos que faziam mais meu gosto pessoal. Nos últimos anos presenciamos  uma reviravolta no paladar do público consumidor, especialmente o de formadores de opinião, e aqueles vinhos “Parkerizados”, marcados pelo excesso de frutas maduras, álcool e madeira  perderam terreno para vinhos mais delicados, elegantes e fáceis de beber, bem no estilo que antecedeu o boom dos vinhos novomundistas acima citados. Algum problema com isto? Claro que não, pois muitos deles nunca mudaram seu estilo, mantendo uma agricultura mais tradicional com pouco ou quase não uso de químicos, e até mesmo mínima intervenção no processo de vinificação, sempre usando as experiências seculares de produção. Claro que o avanço tecnológico ajudou bastante, especialmente no que diz respeito a higiene, e muitos destes tradicionalistas a adotaram em diversas fases de seus processos de produção. Portanto, tenho uma certa dificuldade em afirmar que existe uma nova onda de vinhos naturais e orgânicos e até acho que esta rotulagem dificulta a compreensão destes exemplares. Os vinhos chamados de naturais, orgânicos, etc, em sua maioria são elaborados em processos tradicionais, onde existe pouca intervenção, tanto na viticultura como na vinificação. Tudo fica ainda mais complicado pois alguns produtores certificam seus vinhos e outros preferem não gastar dinheiro com isto. Mas o que mais me incomoda, e foi o motivo desta crônica, e que sempre que acontece uma grande mudança,  vem acompanhada de  radicalismo, no tema em questão são alguns daqueles produtores que elaboram vinhos mais extremos onde na maioria dos casos seu destaque se dá por terem algo diferente dos vinhos tradicionais, e infelizmente muitas vezes trata-se de defeitos de vinificação. Certamente este é um tema complexo e polêmico portanto vou  focar descrevendo apenas dois dos principais defeitos do vinho e suas causas 1) Brett( Brettanomyces) Aroma forte de estabulo, suor, couro, etc – Contaminação  pela levedura brettanomyces  nas uvas, equipamentos ou contenedores de guarda que poderiam ser reduzida ou eliminada se houvesse uso de SO2 ou mais baixas temperaturas na armazenagem. 2) Acidez Volátil -Bactéria acética que compromete o aroma e gosto do vinho trazendo aquele desagradável toque avinagrado. Esta contaminação ocorre normalmente por falta de higiene no processo de vinificação. Legislação europeia permite 1,2 g/litro, mesmo que na média os produtores em geral trabalhem por volta dos 0,5g/l .

Muito bem, este dois exemplos são tecnicamente reconhecidos como defeitos para os  vinhos, entretanto, dependendo de seu estágio de contaminação, podem dar mais complexidade aromática como é o caso do Brett em rótulos conhecidos como ocorre com o Beaucastel Chateauneuf du Pape, e Chateau Pichon Lallande apenas para citar dois casos, ou maior vibração no caso da acidez volátil em rótulos como o Vega Sicilia , Musar, e o Penfolds .  Então se racionalmente aceitamos estes defeitos por que estamos discutindo este assunto? Por uma razão muito simples já citada anteriormente: o radicalismo que muitas vezes acompanha o modismo. Quando o defeito passa a ser extremo, como acontece com muitos destes vinhos que eu apelidei de “Ripongas”, onde forte aromas de estabulo, bueiro, ou vinagre passam a ser cultuados como diferenciação ou qualidade. Mas como gosto não se discute, deixo para cada um de vocês analisar friamente os vinhos que tomarem e decidir se te satisfazem. Particularmente gosto muito de vinhos com um pouco de Brett quando a contaminação é baixa trazendo maior complexidade ao vinho como couro, pelo animal, mas fugiria correndo de aromas de bueiro, suor forte, cachorro molhado etc. Aceitaria a acidez volátil leve que traz aromas balsâmicos, frescor, e vibração na boca, mas fugiria do vinagre, a não ser para temperar a salada.

Existe uma série imensa de defeitos que poderiam ser usados como exemplo para esta crônica: aroma de gás, verduras cozidas, aroma sulfídrico, diacetil etc etc mas estes ficam para um post futuro.

Finalizo dizendo que extremos não deveriam ser referência, Saúde !


11 de out. de 2018

Momentos de reflexão durante Avaliação Nacional de Vinhos



Uma viagem ao interior do Rio Grande do Sul para atender a Avaliação Nacional de Vinhos em sua edição de 2018 me fez refletir sobre nosso padrão de vida e nossas escolhas. Em meio a uma explosão de ódio e radicalismo causado pelas nossas eleições presidenciais tive momentos de reflexão que afloraram minhas emoções com pequenos acontecimentos de nossa viagem. Elas se apresentaram sob diversas formas, como a de ver nosso único Master of Wine brasileiro contendo suas lágrimas ao comentar sua reação ao ouvir o hino nacional na abertura do evento. Na fala singela e carregada de sotaque italiano do Sr Plinio Pizzato contando “causos”e a história de sua vinícola que na verdade é a sua própria história de vida. 

Na honra de ser gaúcho, representada pelas bandeiras do estado coladas em vidros ou latarias dos carros, hasteadas em casas e estabelecimentos comerciais, que muito mais do que em outros estados brasileiros despertam um nacionalismo patriótico hoje esquecido por muitos de nós. 
Na preocupação em manter a história da cidade de Garibaldi viva, pelo restauro dos antigos casarões que acabam tornando-se atração turística, bem diferente do que vemos em outros grandes centros como nossa Av Paulista só para citar um exemplo.
 Por que perdemos tempo na defesa de partidos políticos que se lixam para o que nós pensamos, e que só se preocupam em se perpetuar no poder? Por que perder colegas por conta de discussões radicais sem fim que não levam a lugar nenhum?

 Vamos dar um basta  nisto  dar as mãos e começar a trocar ideias do que é melhor para o Brasil, vamos chorar pelo nosso hino, contar e aprender com nossas histórias de vida, vamos mostrar com orgulho nossa bandeira verde e amarela, vamos cuidar de nosso patrimônio cultural, apenas para citar os acontecimentos por mim citados nesta curta viagem. Tenho certeza que existem outros tópicos até bem mais importantes do que este curto relato, e que devem ser debatidos sem radicalismo para o bem de nossas futuras gerações. Vamos baixar a guarda e buscar a pacificação, e para brindar isto por que não começar com um bom vinho nacional que deveria ser tema desta minha crônica, mas que perdeu espaço para algo mais pungente.

Paz

7 de mar. de 2017

Verticais forma certa de mensurar o potencial das safras.


 

Cada vez que participo de uma degustação vertical, mais me animo, afinal é sempre um motivo de bom aprendizado  Recentemente fui convidado por Adriano Annovi Gerente Geral da Lunadoro  para participar de degustação vertical do Nobile di Montepulciano de sua produção. Lunadoro é  uma das estrelas do grupo suíço Schenk  que possui 18 vinícolas sendo 10 na Suiça,  4 na Itália, 2 na França, e 2 na Espanha. Foram 10 safras do Lunadoro Riserva Quercione contemplando os anos de 2004, a 2013. A apresentação ficou a cargo do novo enólogo da casa o competentíssimo Maurizio Saettini ( guardem este nome)  que pacientemente nos explicou os dados técnicos de produção e características de cada uma das safras provadas. Maurizio trabalhou 10 anos com Roberto Cipresso e tem como filosofia a produção natural através da viticultura orgânica, evitando também ao máximo interferências no processo de vinificação além de um “Midas Touch” na relação do vinho com a madeira. Neste processo ele desenvolve constante busca junto às tanoarias do tipo de madeira e tosta corretas para cada terroir com o qual está trabalhando, o resultado é realmente animador mesmo para aqueles que não tem prazer em tomar vinhos com passagem em madeira. Seus vinhos são olfativamente complexos, elegantes, leves, muito fáceis de beber. Durante nossa vertical ficou extremamente clara a diferença de estilos que este produtor adotou com o passar dos anos e certamente com a mão dos diferentes enólogos. As primeiras duas safras  foram quentes e consideradas 4 estrelas pelo próprio Consorcio, ambos os vinhos estavam maduros, muito bem balanceados e totalmente prontos para beber mostrando definitivamente o grande potencial do terroir . A safra 2006 que veio a seguir certamente foi o destaque entre os vinhos " Pré Maurizio", uma safra 5 estrelas com clima frio, que gerou um vinho extremamente elegante, fino e de muita complexidade. As safras 2007, 2008, 2009, e 2010 todas entre 4 e 5 estrelas  mostraram uma mudança sensível no processo de produção pois “para mim” os vinhos se apresentaram  mais quentes estruturados, alcoólicos e amadeirados. Finalmente os últimos 3 exemplares, já elaborados por Maurizio (2011, 2012, e 2013 ), voltaram a mostrar aquela complexidade olfativa, complementada por  um  toque de elegância que não havíamos notado nas safras anteriores, e principalmente pela harmonia do vinho com a madeira, uma mudança pra lá de perceptível.  Meus destaques ficaram para os Riserva Quercione 2006, 2012, e 2013.
 
Maurizio Saettini

A Lunadoro está localizada em Valiano dentro da região de Montepulciano e conta com 40 hectares dos quais 12 ocupados por vinhedos sendo 10 hectares de Sangiovese e 2 de Merlot e Cabernet Sauvignon. A empresa adquirida pela Shenck em 2016 produz por volta de 35 mil garrafas de vinho/ano, mas já conta com plano de expansão que a levara próxima aos 80 mil garrafas ano, além da melhoria geral nos processos de produção. Certamente uma ótima opção para quem gosta de Sangiovese e mais especificamente dos Nobiles de Montepulciano.  Quem tiver acesso a este produtor tente comprar suas safras mais recentes você não vai se arrepender! Já entrou na minha lista de desejos. Salute !

2 de mar. de 2017

Vinho industrial é bom ?



Este é um tema que a muito tempo gera polêmica entre os experts de vinho! Particularmente sou da opinião que bom vinho é aquele que nos dá prazer, que tem perfeito balanço de boca e boa complexidade olfativa, podendo ser produzido tanto por pequenos produtores como pelas gigantes da indústria do vinho. Entendo que quando um grande produtor consegue manter um padrão alta de qualidade para grandes volumes deve merecer o nosso reconhecimento, e respeito. Tendo dito isto me vem à cabeça alguns produtores que podem se encaixar nesta categoria e que realmente me agradam: Antinori, Chandon, Concha Y Toro, Miguel Torres, Mondavi, Nederburg, e Penfolds apenas para citar alguns. O que me fez escrever estas linhas foi um vinho elaborado por uma destas vinícolas mencionadas que eu e meu irmão compramos a uns 3 anos atrás em uma promoção da Expand , o nome?  Winemakers Lot Riesling safra 2007 do vale de Bio Bio  elaborado pela Concha y Toro.  Me lembro que após comprarmos umas 2/3 garrafas ficamos impressionados com seu frescor, estrutura e complexidade mesmo que  naquela ocasião já tivesse 7 anos de garrafa, o prazer que o vinho nos proporcionou nos fez comprar todo o estoque que eles ainda tinham, o que nos gerou por volta de 50 garrafas. Ontem coincidentemente abrimos uma das últimas garrafas que ainda temos, e nosso parecer continua sendo o mesmo que este branco  já carregue em suas costas  10 anos de garrafa. Certamente minhas ultimas 2 garrafas serão abertas daqui uns 3 anos pois quero ver onde este vinho chega.
 
Com este vinho posso responder a questão vinho industrial é bom? Claro que sim, um vinho como este, que mantem o frescor a complexidade e resiste sem problemas ao tempo só pode ser muito bom. Vamos então parar com esta historia de que tudo que é produzido em grandes volumes não é bom, como tudo na vida existe bons e maus em todos os segmentos, sejam eles grandes ou pequenos.  Meu respeito e congratulações a Concha y Toro pela seriedade e profissionalismo ! E minha pequena homenagem a Ignácio Recabarren, a quem não conheço, por ter sido o enólogo responsável por este maravilhoso exemplar. Ignácio lidera hoje quatro linhas de produtos da Cocha Y Toro: : Trio, Terrunyo, Amelia, e o ícone Carmin de Peumo considerado por muitos como o melhor Carmenere produzido no Chile .
Saúde.

Saúde.

26 de fev. de 2017

Tintos maduros uma decisão difícil



 
Gostar de vinho tinto é muito prazeroso, mas achar o tempo certo de cada vinho é uma arte que, admito, pouca gente tem condições de fazer  pela  complicada relação dinheiro/tempo. Normalmente todos começam a tomar vinhos jovens, pois são estes os que encontramos no mercado brasileiro, diferentemente da Europa, onde importadoras, restaurantes  e enotecas tem o costume  de fazer guarda de vinhos para os consumidores mais exigentes. O problema é que com o passar do tempo você nota que bons vinhos tintos  realmente precisam de tempo de evolução em garrafa, e aí mora o perigo porque quanto mais exigente o consumidor fica, mais ele quer tomar vinhos maduros,  momento em  que o vinho mostra toda  complexidade olfativa e suas sensações de boca se tornam aveludadas com um perfeito balanço entre acidez, taninos e álcool. Como fazer então?  Você tem tres alternativas: 1)  Se sua situação financeira é confortável escolha, ou peça consultoria a um bom sommeliere, o nome de alguns bons rótulos  que tenham potencial de guarda e compre uma caixa de cada. Estime quanto tempo será necessário para que o vinho atinja seu ponto correto de consumo e lá chegando comece a abrir uma garrafa por ano, acompanhe sua evolução e quando estiver no ponto não espere, convide os amigos apreciadores e curtam o vinho. Importante: se por ventura sentir que ele está começando a passar do ponto não vacile, abra a outra garrafa e se confirmar a sensação não perca mais  tempo e faça o consumo do estoque senão você irá ficar muito decepcionado, afinal você gastou bons anos guardando “a joia” e corre o risco de não receber de volta os prazeres esperados. 2) A segunda alternativa é mais fácil e menos custosa, basta escolher alguns bons rotulos e guarda-los por volta de 10 anos e correr o risco, ( normalmente é satisfação garantida para bons vinhos do velho mundo e alguns do novo mundo), claro que são vinhos para ocasiões especiais, mas pergunto quem tem condições de tomar vinhos TOP todos os dias ? 3)  A alternativa final é de relaxar e consumir os vinhos que você encontra nas importadoras, tentando sempre comprar as safras mais antigas, que são relativamente comuns de serem encontradas nas promoções anuais quando as principais importadoras fazem a limpa de seus estoques antigos, pontas de estoques, ou mesmo visando  finalizar exemplares de vinícolas que eles não querem mais trabalhar. Certamente uma alternativa sem muito risco, mais econômica, e que costuma dar certo.  Se nada disto te anima, sem problemas,  continue tomando os vinhos que estão disponíveis no mercado  mesmo que jovens e aproveite, mas tenho a impressão que o dia que você tomar um vinho maduro no ponto certo vai lembrar desta matéria.

Saúde

7 de fev. de 2017

Momento de reflexão voltando das férias


O mundo do vinho, como tudo nas mídias sociais, está entrando em um tipo de caos que só perde para as infinitas e estúpidas discussões sobre política. Modismos, estrelismo, tendências, preferências tudo é motivo de discussão e afirmação de alguns novos iluminados. Nosso mercado tem muitos Millis Vanillis Vinus  que sabem tudo, desde os milhares de rótulos chilenos, aos vinhos mais tradicionais como os da Borgonha ou do Piemonte ( apenas para citar duas fontes) suas diferentes características, safras ou até mesmo de seus pequenos “Crus”. Nessas horas me pergunto como é possível ter tamanha capacidade e conhecimento? Será por experiência física (provando todos os vinhos publicados), ou pela simples leitura de panfletos comerciais e notas dos sites dos produtores?  Particularmente admito que não tenho esta capacidade ! Falo única e exclusivamente sobre os vinhos que provo e “gosto”, evitando críticas aos que não me agradam, afinal pessoas tem gostos diferentes. 


Durante minhas últimas férias (que por sinal estão ficando cada vez mais extensas) estava pensando: porque ainda mantenho este meu  blog já que tenho meu espaço profissional na mídia escrita? Desde que lancei meu “Tommasi no Vinho” nunca tive como objetivo ganhar dinheiro com ele, mesmo que já tenha recebido algumas ofertas de patrocínio. Respeito muito meus amigos blogueiros que profissionalizaram seus blogs e sites, e não vai aqui nenhum tipo de crítica, afinal o meu blog sempre foi e continuará sendo amador. Bem, a resposta à minha dúvida foi SIM  quero e vou  continuar com meu blog independente, escrevendo quando existe algo para ser escrito sem a obrigação de ser algo diário ou semanal e sem compromisso comercial com nenhum produtor ou importador. Mas porque então de minha dúvida inicial? E a resposta foi de que talvez eu já estivesse cansado do formato do mesmo, portanto durante 2017  estarei  mais uma vez presente no dia a dia dos que me seguem, mas com algumas mudanças: 1) Quero que meus posts tenham ainda mais conteúdo, 2) Evitar “over exposure” por múltiplas  postagens,  3) Só comentar os vinhos provados mas sem perder tempo com pontuações, 4) Publicar  mais crônicas argumentativas.

Espero que a mudança seja positiva e que eu tenha tempo suficiente superando a preguiça para escrever mais um pouco sobre este complexo e maravilhoso mundo do vinho.

Um brinde a todos vocês