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12 de jan. de 2016

Pois Pois 3 hora e vez do Dão


 A zona do Dão situa-se na região da Beira Alta, no centro norte de Portugal.  É uma região  montanhosa, e os vinhedos se encontram entre os 400 e 700 metros de altitude. O solo predominante é xistoso, ou granítico de pouca profundidade. O clima é marcado por Invernos  frios e chuvosos , e verões  quentes e secos. Tal como a Bairrada os produtores tem pequenas áreas, e  por muito tempo reuniam suas forças em cooperativas que produziam o vinho que era posteriormenteprémio Nobel, José Saramago, declarou a sua paixão pela região do Dão ao afirmar: “Tudo nestas paragens são grandezas”. vendido as grandes empresas engarrafadoras, e tavés isto explique o porque de poucas marcas famosas na região. Mas será que isto realmente  importa? Quem gosta de vinhos gastronômicos certamente é apreciador  desta região, alguem muito importante me faz compania nesta paixão, o prémio Nobel, José Saramago, declarou a seu amor pela região do Dão ao afirmar: “Tudo nestas paragens são grandezas”. 

Nas  castas  tintas a Touriga Nacional, tem papel fundamental, sendo para mim o melhor  terroir para esta casta, com seus aveludados exemplares, sendo seguida pela Afrocheiro, Jaen, Aragonez , e Rufete, enquanto entre as brancas destacam-se a Encruzado ( em minha opinião o grande achado dos últimos anos nas variedades brancas) ,  Bical, Cercial Branco, e Malvasia Fina. Nossa programação nesta região foi concentrado em uma grande prova no Solar do Dão sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão, localizado na cidade de Viseu  com a presença de 9 produtores que gentilmente e pontualmente  nos apresentaram seus principais vinhos seguidos de um almoço caseiro com deliciosas comidas típicas da região, que de tão intenso  me “forçou” a  dormir na van quando saimos de lá para o Douro.Gente como se come e bebe bem em Portugal.  
Vamos às vinícolas presentes e seus destaques:

 Quinta da Falorca – T-Nac 2010 – Varietal 100% Touriga Nacional - Distribuido no Brasil pela World Wine - Vinho mais estruturado do que o padrão da região mas com um balanço de boca delicioso. Violetas , frutas negras maduras e menta dominam se olfativo . No Brasil pode ser encontrado a R$ 178










Vinícola de Nelas -  Quinta das Estémuas Touriga Nacional 2008. - Varietal 100% Touriga Nacional Distribuido no Brasil pela Grand Cru - Um vinho muito delicado com nariz marcado por aromas florais, frutas negras, leve chocolate e mineralidade. Na boca elegante, daqueles que a a garrafa esvazia facilmente. No Brasil custa  R$ 205










Quinta do Carvalhão Torto - Encruzado 2014. - Varietal 100% Encruzado - Distribuido no Brasil pela Mr Man - Tremendo branco, complexo no nariz com frutas amarelas lembrando manga, toque delicados de frutas cítricas e muita mineralidade. Na boca direto fresco como todo o bom branco precisa ser . Não encontrei o preço no catalogo da Mr Man.










Quinta do Perdigão - Afrocheiro 2009 – Varietal 100% Adrocheiro -  Distribuido no Brasil pela Mistral - Um vinho mais tradicionalista com aromas de cerejas já com ligeira evolução, couro e tabaco. na boca elegante fácil de beber prontissimo que em momentos lembra um bom Pinot Noir . No Brasil custa R$ 350 nestes dias em promoçao por 227










Quinta Ponte Pedrinha – Quinta Ponte Pedrinha Reserva 2011 – Corte com 35% Touriga Nacional, 30% Tinta Roriz, 20% Afrocheiro, e 15% de Vinhas Velhas - Distribuido no Brasil pela Mistral - Olfativamente marcado pelas frutas vermelhas confitadas,delicado tostado e presença de especiarias doçes como canela e cravo. na boca, ótima acidez mas taninos ainda não prontos, vinho que promete muito mas precisa de mais tempo de garrafa. No site da Mistral encontrei a safra de 2005 que deve estar pronta a preço de R$  212 em promoçao por 138










Sogrape – Quinta dos Carvalhais Garrafeira 2014 – Corte com Touriga Nacional , Tinta Roriz  e Alfrocheiro  -  Distribuido no Brasil pela Sogrape - Mais um ótimo exemplar desta maravilhosa uva branca do Dão que a cada dia mais me encanta , olfativamente com aromas cítricos minerais e florais, na boca untuoso mas ao mesmo tempo sedoso com bom peso e final de boca marcado pelo marzipan. Preço no Brasil R$ 225











Quinta Mendes Pereira – Encruzado  Reserva 2012 – Distribuido no Brasil pela Reserva Importadora - Um vinho mais estruturado para os apreciadores de de vinhos novomundistas , mas que mostrou um nariz complexo com frutas amarelas,maduras toques minerais . Na boca potente ainda não pronto mas com potencial de guarda . Nao encontrei o preço de venda no Brasil mas não deve ser barato pois custa Euros 14 em Portugal.










Quinta das Camélias – Quinta das Camélias Reserva 2010  - Corte  elaborado com Touriga Nacional, Afrocheiro e Jaen - Distribuido no Brasil pela Casa do Vinho - Mais um vinho com estilo mais tradicionalista, mais simples e fácil de beber. Violetas e balsâmico no nariz e boca elegânte com tudo no lugar e persistência média. No Brasil custa R$ 74










Dão Sul – Cabriz Reserva  2012 – Corte elaborado com Touriga Nacional .Tinta Roriz , e Alfrocheiro  - Distribuido no Brasil pela Interfood - Vinho de caracteristica mais auster com frutas negras maduras, a tradicional violeta e delicado tostado. Na boca bem equilibrado co persistencia média e final de boca muito agradavel. No Brasil custa R$ 129










Caminhos Cruzados – Titular Tinto Reserva  2013 – Corte elaborado com Touriga Nacional, Alfrocheiro , e Tinta Roriz – Sem distribuição no Brasil - Mais um típico exemplar de Touriga Nacional com aromas de violetas e um mix de frutas vermelhas e pretas , e muito leve tostado. boca elegante , harmoniosa, e gastronômica. Agradou. Sempreço no Brasil . Em Portugal Euros 7 









Agradecimento especial a nossa guia Sonia Vieira por fazer tudo funcionar dentro do tempo programado de uma maneira bem descontraida o que incluiu conversas com todos os produtores e degustação de mais de 30 vinhos estipulado no programa em uma hora e meia. Me agradou muito também a postura dos produtores entre sí, não mostrando aquela competitividade comum em todos os segmentos de negócio, pelo contrario, um ajudando ao outro a divulgar os produtos de sua região . Orgulho pelo seus vinhos sim, concorrencia negativa não ! Afinal este mundo tem espaço para todos especialmente quando o vinho e tão bom quanto o Dão !

27 de dez. de 2015

Pois Pois ..Portugal 2 – Bairrada a Borgonha portuguesa




Como profissional deste complexo mundo dos vinhos, sempre analizo os mesmos de forma técnica, sem levar em conta o estilo, modismo e até mesmo meu gosto pessoal, e para ser simplista acredito que a complexidade olfativa e o equilibrio de boca ( Acidez, taninos e álcool para os tintos, e acidez e álcool para os brancos ) são os fatores mais importantes no processo analitico, e isto pode ser encontrado tanto nos vinhos mais modernos como nos tradicionais. Mesmo respeitando todos os estilos sempre me considerei um amante de vinhos “ estilo velho mundo” primeiramente por serem mais fáceis de beber, gastronômicos, e terem uma personalidade própria que a palavra francesa  Terroir  tão bem define.  

Você pode estar se perguntando o porque deste curto introdutorio?   Pois é, reconheço que hoje em dia regiões como o Douro e o Alentejo são refer6encia e dominam o comércio internacional  elaborando seus vinhos de forma perfeita ,mas é na Bairrada que meu coração fica. Infelizmente a região não goza de de boa imágem, talvés  pelos produtores insitirem em adotar metodos de vinificação mais antigos sem tirar proveito da alta tecnologia , mas garanto que eles já tem algumas exceções como Luis Pato, e  Mario Sergio Nuno ( Quinta das Bágeiras) que estão dando o devido reconhecimento à região com seus magníficos tintos brancos e espumantes.

Em minha última viágem a Portigal tive o prazer de constatar que Luiz Pato fazia parte do programa de visitas, vamos aos detalhes. Localizada na costa central de Portugal da cidade de Coimbra , é reconhecida como uma das regiões mais tradicionais na elaboração de vinhos do país. Área majoritariamente plana tem como excessão as serras do Caramulo e Buçaco , também tem a vantágem de ser  banhada pelo Oceano Atlântico que garante a região um clima temperado, com chuvas abundantes. Esta DOC é cultuada pelos apreciadores de vinho pela longevidade de seus vinhos, assim como por ser a primeira região de Portugal a elaborar vinhos espumantes de alta qualidade. Suas principais castas são: Brancas – Arinto, Bical, Cercial, Maria Gomes alem das internacionais Chardonnay e Sauvignon Blanc. Tintas – Baga, Touriga Nacional, Syrah  Cabernet Sauvignon , e Merlot.
Maria João Pato
Nossa programação na Bairrada foi muito rica com visitas ao rei da Baga  Luiz Pato, à gigante Caves Aliança , e ao mítico Hotel Bussaco.  Infelizmente o revolucionário da Bairrada  estava viajando e não pode estar presente , mas sua astuta filha Maria João nos acolheu de forma muito amável além de esbanjar um humor quase britânico e conhecimento do negócio  do pai que tenho certeza  irá caminhar para suas mãos com o passar do tempo.
Muito difícil para mim escolher meus favoritos entre os vinhos a nos servidos em degustação realizada no Restaurante Rei dos Leitões mas vou me arriscar indicando o gastronômico espumante elaborado com a casta Baga chamado “Informal “ da  safra 2013 , para o Luis Pato Vinha Barrosa Monopólio  Vinhas Velhas  2012 um verdadeiro show de elegância, e finalmente o Luiz Pato Vinhas Velhas 1995, aberto especialmente para nos, declarados apreciadores de vinhos mais maduros.

 Aliança Underground Museum

Próxima parada Cave Aliança, recebidos pelo “pilhado” Mário Neves uma das pessoas mais eletricas e comunicativas que já tive a oportunidade de conhecer, com direito a visita ao fenomenal Aliança Underground Museum que tem como destaques:  Coleção Arqueológica, Arte Africana., Esculturasdo Zimbabué, Colecção de Minerais, Coleção de Fósseis, Cerâmica das Caldas, Azulejos, e Estanhos. Apenas como informação Joe Berardo proprietário da Caves Alianza é um dom maiores  colecionadores  de arte da Europa superando em número de obras o próprio Museu Guggenheim. Em 2007 Berardo inaugurou em Lisboa o Museu Berardo de Arte Moderna e Contemporânea que eu tive a oportunidade de visitar pessoalmente e hoje é uma das atrações turisticas de Lisboa.
Em nossa prova de 10 vinhos da empresa destaco o Aliança Bairrada Baga Tinto 2009, e o T Quinta da Terrugem 2011 do Alentejo, deliciosos.
Para fechar o dia um jantar e pousada no mítico Palace Hotel do Bussaco inaugurado em 1917 após reforma do palácio Bussaco construido em 1886,onde fomos  recebidos  por Antônio Rocha responsável pela área de vinhos do grupo. Certamente as histórias são tantas por aqui que mereceria uma matéria a parte,mas vou me conter e apenas citar os vinhos provados : Brancos ( 2001, 2003, 2013 ) Tintos ( 2001, 2011) além de duas jóias especialmente abertas para nossa visita Um Bussaco Branco 1956, e um Bussaco Tinto 1983. Incrivel como estes vinho melhoram com o tempo de garrafa. Claro que antes de sair do Hotel como fã incondicional de seus vinhos  passei pela lojinha e comprei  3 garrafas desta preciosidade para minha adega.
Gostaria de encerrar este post com um conselho, se você ainda não teve a oportunidade de provar um vinho desta região, compre qualquer um dos tintos elaborados com a casta Baga e abra quando ele tenha pelo menos 5 anos de garrafa certamente entenderá o por que comparam a Bairrada aà Borgonha e a Baga à Pinot Noir. Não perca a oportunidade de provar os espumantes da região, certamente os melhores de Portugal, e quem encontrar prove os frescos e elegantes brancos, especialmente os elaborados com as variedades Maria Gomes, e Arinto que pouco a pouco estão entrando em nosso mercado
Bairrada , até breve , viva a tradição !


VINI PORTUGAL - Site: www.winesofportugal.com

10 de nov. de 2015

Portugal, onde gente especial faz a diferença

Quinta da Gaivosa


Jornalistas especializados em turismo, gastronomia e vinhos são sempre lembrados com frases como “Você que leva a vida”, “ Precisa de um ajudante para carregar a mala”, “Você está sempre de ferias? “ Minha resposta padrão é sempre a mesma vocês só enchergam o lado bom da coisa. Já passei por diversos apertos, como chegar para um festa de gala onde terno era obrigatório de jeans, tenis e mochila nas costas  e ainda com anuncio oficial da organização aos presentes de que haviam chegado alguns jornalistas vindo diretamente de visitas a produtores que estariam sem os trajes adequados, isso que eu chamo de saia justa. Mas existem outra viagens que certamente ficam na história como a que acabei de participar organizada pela Vini Portugal sobre a qual estarei fazendo uma matéria para uma próxima edição da Go Where Gastronomia. 
Eu, Domingos, Lucinda. Mariana, Pedro e Gerosa 
Mas quero destacar aqui no meu blog a visita, parte do programa, que fizemos a Domingos Alves de Souza em sua Quinta da Gaivosa. Ao chegarmos o dinâmico Domingos já estava “à porta” para nos recepcionar com um largo sorriso na boca, e pelo fato do dia estar meio chuvoso já propondo a visita às quintas enquanto a chuva era ainda  leve. Para aqules que conhecem o Douro e especialmente a Quinta da Gaivosa devo admitir que fique preocupado quando ele disse vamos no meu Jeep que depois descobrimos ser uma BMW X5. 


Bem, pensei, ele vai pegar as estradas principais e vamos ver  os vinhedos de forma cinematográfica. Mas não, Domingos foi logo se embrenhando nos estreitos caminhos de terra entre os vinhedos, em uma aventura cheia de adrenalina pela altura dos barrancos e pela chuva leve , mas por outro lado uma verdadeira obra de arte que poderia ser facilmente assinada por Van Gogh, ou Paul Gauguin , definitivamente fomos tragados por um quadro vivo, em uma das mais bonitas paiságens que já presenciei, e me perguntando, imagina se o dia estivesse ensolarado. Só esta parte já teria sido suficiente para a visita ficar marcada , mas a coisa não ficou por ai, com aquela amabilidade típica dos bons portugueses Domingos e sua filha Mariana nos proporcionaram uma agradavelmente curta vista a sua linda e recentemente inaugurada vinícola, uma degustação com toda sua linha TOP de vinhos ( Cá entre nos uns 3 a 4 vinhos a mais do que o programa oficial) e para finalizar um almoço familiar comandado por Dona Lucinda esposa de Domingos em sua própria residência do qual só saimos por termos compromisso a seguir.  Ir para o Douro sem conhecer este pessoal , nem pensar, em minha próxima viagem por aquelas bandas faço questão de rever os novos e hospitaleiros amigos.

  Gostaria de descrever todos os vinhos provados especialmente o meu sempre favorito Quinta da Gaivosa , o estruturado Vinha do Lordelo, e o elegante O Abandonado mas hoje darei destaque a um vinho novo que me deixou de queixo caido o “ancestral “ou como querem outros “laranja” Pessoal Branco 2006 um corte de Gouveio, Malvasia Fina, Viosinho e outras varietais do Douro de vinhedos com mais de 60 anos, com 24 horas de maceração com suas cascas, fermentação em barricas francesas de primeiro uso e maturação em barricas por 6 meses seguidas de mais 6 meses de guarda em garrafa, 14,5 de álcool, e que custa na Europa 25 Euros. Este vinho  ainda nao  está disponível no Brasil ,mas acho que por pouco tempo pois tem a cara de seu importador exclusivo, a Decanter  – Dourado indo para laranja brilhante. Olfativamente marcado pelos aromas oxidativos, mel, floral, petrolato, cítricos lembrando mexerica, e leve herbáceo. Na boca, potente mas fresco, ligeira tanicidade, bom corpo, e final de boca confirmando o olfativo.  Para os amantes dos vinhos laranja diria que ele fica entre um Radikon e um Gravner , imperdível .
Para os que forem ao Douro esta deve ser uma parada obrigatória “com prazer”. Saúde Domingos !!!

Quinta da Gaivosa - www.alvesdesousa.com

27 de jul. de 2015

Alsácia França com sotaque alemão

Nosso enviado especial, Walter Tommasi, visita a Alsácia, região trinacional da França, na fronteira com Alemanha e Suíça, lendária pela uva Riesling – e descobriu novos e surpreendentes sabores no vinho local
Texto e fotos Walter Tommasi
Entender o potencial de um vinho, uma variedade ou uma região passa por um processo de aprendizagem que inclui o conhecimento básico do que estamos tomando, o conceitual por trás de cada exemplar, e, definitivamente, uma certa “litragem”; só assim podemos nos considerar aptos a dar uma opinião abalizada sobre vinhos. Sempre considerei a Riesling minha variedade favorita entre as brancas, pelo fato de ter características fundamentais num vinho branco: frescor, complexidade olfativa e grande potencial de guarda, além daquele ”plus” dos aromas minerais que tanto me agradam nessa varietal. Mas devo admitir que, pela minha não tão ampla experiência com essa variedade, sempre considerei os vinhos alemães e austríacos um passo à frente, deixando os alsacianos em segundo plano, visto achá-los um pouco menos expressivos. Pura falta de experiência. Mas tudo mudou recentemente após eu ser convidado pela Sopexa a conhecer a região e seus principais produtores. Como diriam alguns, “fiquei de queixo caído” com o que vi e provei. Como resultado dessa viagem, passei a ser um neófito literalmente apaixonado pelos vinhos da região. Antes de descrever a viagem e os maravilhosos vinhos que tivemos a oportunidade de provar, devo registrar as belezas naturais da região, com sua topografia ondulada, seus castelos e suas cores. O registro histórico e sua arquitetura, predominantemente germânica, com floreiras multicoloridas, os marcantes crucifixos espalhados pelas regiões de domínio católico, os primorosos jardins minuciosamente cuidados, as cegonhas e seus ninhos, e, finalmente, sua variada gastronomia, que une o melhor das duas culturas, do sofisticado foie gras francês ao tradicional joelho de porco alemão. Enfim, tudo por lá é incrivelmente bonito, calmo, germanicamente organizado, mas com aquele charme francês, o que faz da Alsácia uma região obrigatória nas listas de viagem daqueles que realmente curtem a vida. E, a partir de agora, fica minha dica para os que decidirem visitar o local: não deixe de fazer a rota dos vinhos, 170 km de pura felicidade e encanto.

A hora e a vez dos vinhos

Se tivesse apenas uma palavra para descrevê-los esta será seria: surpreendentes. Como não bastasse a altíssima qualidade os vinhos brancos alsacianos são hoje realmente os de melhor custo- benefício do planeta. E não se restringem apenas à minha variedade favorita, a Riesling. Degustamos muitos Gewurztraminer, com toda aquela estrutura e exuberância aromática de nuances florais e frutadas. Foram vários Pinot Gris, opulentos e complexos, alguns marcantes Pinot Blanc, sempre delicados e frutados, poucos Sylvaner, leves e frescos, os Muscat secos e encantadores, raros Pinot Noir marcados pela estrutura de corpo amplo. Sem esquecer os deliciosos e borbulhantesCremant D’Alsace. Enfim, um incrível mosaico de variedades, todas plantadas entre as cidades de Strasburgo e Mulhouse, passando por Ribeauville e Colmar, onde se encontram alguns de seus mais expressivos Grand Crus.
Para descrever em detalhes esta maravilhosa viagem, narrando a vocês os principais detalhes de cada visita, seria necessária uma edição exclusiva. Como infelizmente não temos esse espaço, faço aqui um resumo das vinícolas visitadas, nomeando nossos respectivos anfitriões e fazendo um curto descritivo do vinho considerado por mim como o mais significativo de cada produtor, além de informações básicas do cru de onde as uvas foram originadas e as importadoras que os representam no Brasil. Vamos a eles:
Marc Kreydenweiss – Localizada em Andlau, fomos recepcionados por Antony Kreydenweiss. Riesling Grand Cru 2008: vinho biodinâmico elaborado com uvas de Kalstelberg. Um perfeito exemplo do que um Riesling deve ser: mineral, cítrico, borracha, alta acidez, toque tânico, final de boca fresco e frutado. Representado no Brasil pela World Wine.
Frey Sohler – Localizado em Scherwiller, fomos recepcionados por Damien Sohler. Gewurztraminer Vendages Tardives Millesime 2008: elaborado com uvas de Scherwiller. Mel, frutas tropicais maduras, potente, estruturado, macio, longo. Representado no Brasil pela Casa Santa Luzia.
Vinicole D’Orschwiller – Na cidade de mesmo nome, fomos recepcionados por André Maldonado. Riesling Grand Cru 2002: elaborado com uvas de Praelatenberg. Aromas limpos de pedra molhada, petrolato e frutas maduras. Na boca, seco, fresco com aquele delicioso toque de frutas evoluídas. Representada no Brasil pela Casa do Vinho.
Gustav Lorentz – Localizada em Bergheim, fomos recepcionados por Pascal Schielle. Pinot Gris Selection de Grains Nobles 1989: elaborado com uvas dos Grand Crus de Altenberg e Kanzlerberg. Uma explosão de aromas, figo,
botrytis, mel, nozes, boca com alta acidez, alta complexidade. Representado no Brasil pela Vinhos do Mundo.
Domaines Schlumberger – Localizada em Guebwiller, fomos recepcionados por Sèverine Schlumberger. Riesling Grand Cru Saering 2007: elaborado com uvas de Saering, o mais seco dos vinhos da casa, marcado pela alta mineralidade, aromas cítricos, e de flores brancas; na boca, alta acidez, vívido com longa persistência e final de boca muito fresco. Representada no Brasil pela Taste de Vin.
Domaine Barmes Buecher – Localizada em Wettolsheim, onde fomos recepcionados por Geneviève Barmes. Pinot Noir Grand Cru Vieille Vignes 2009: vinho biodinâmico elaborado com uvas de Wettolsheim. Mesmo produzindo grandes vinhos brancos, este Pinot Noir foi um dos mais delicados que tomei na Alsácia. Muita fruta negra, especiarias e couro, boca elegante com alta acidez e final de boca frutado. Representada no Brasil pela Casa Flora.
Albert Mann – Localizada em Wettolsheim, onde fomos recepcionado pela dinâmica proprietária Marie Thérèse Barthelme. Gewurztraminer Furstentum Grand Cru Sélection de Grains Nobles 2010: vinho biodinâmico elaborado com uvas de Furstentum, um vinho de altíssima qualidade marcado pelos aromas de botrytis, mel e damasco, limpo, com acidez marcante e ótimo balaço de boca. Representado no Brasil pela importadora Cellar.
Domaine Weinbach Faller – Localizada em Kientzheim, onde fomos recepcionados pela aristocrática proprietária Catherine Faller. Pinot Gris Quintessence de Grains Nobles 2008: vinho biodinâmico elaborado com uvas de Altenbourg, complexo, com notas de maçã cozida, botrytis, mel e cana de açúcar. Na boca, alta acidez, puro, dulçor no ponto certo e novamente final de boca com torta de maçã. Representada no Brasil pela Grand Cru.
Domaine Paul Blanck – Também localizada em Kientzheim, onde fomos recepcionados pelo ativo Philippe Blanck. Riesling Wineck Grand Cru 2007: elaborado com uvas de Schlossberg , o mais seco dos seus Rieslings, grapefruit, mineral e toques florais, elegante e com ótimo balanço de boca, retrogosto com toques de limão siciliano. Representada no Brasil pela Decanter.
Cave de Ribeauville – Cooperativa localizada na cidade que lhe dá o nome, onde fomos recepcionados pela enóloga Evelyne Dodlinger. Clos Du Zahnacker 2007: blend muito interessante elaborado com Riesling, Pinot Gris e Gewurztraminer do cru Osterberg. Vinho bastante complexo com predominância mineral e cítrico e com boa estrutura de boca. Representada no Brasil pela Chez France.
Léon Beyer– Localizado em Eguisheim, onde fomos recebido pelo atencioso proprietário Yann Beyer. Pinot Gris Comtes D’ Eguisheim 2007: elaborado com uvas de Pfersigberg e Eichberg, no nariz muitas frutas evoluídas, mineral e toque defumado. Na boca, muita acidez, boa estrutura e final de boca fresco, confirmando o olfativo. Representado no Brasil pela Vinci.
Domaine Jean Marie Haag – Localizado em Soultzmatt, fomos recebidos por Madame Haag. Riesling Grand Cru 2010: elaborado com uvas de Zinnkoepfle, olfativamente muito limpo, com nuances minerais e cítricas. Na boca, alta acidez e elegância. Representada no Brasil pela Chez France.
Domaine Ernest Burn – Localizada em Gueberschwihr, onde fomos recepcionados pelo casal Burn. Riesling Grand Cru La Chapelle 2008: elaborado com uvas de Goldert, talvez o meu Riesling favorito, muito mineral, petrolato, casca de limão e borracha. Na boca, alta acidez, corpo médio, elegante e final de boca muito fresco. Mr. Burn só serviu orgulhosamente este vinho após perceber que os três visitantes tinham preferência
pelos vinhos mais secos e ácidos. Infelizmente sem representantes no Brasil. Grande oportunidade para importadoras que não tenham Alsácia em seus portfólios.
Hugel ET Fils – Localizado em Riquewihr, onde fomos recepcionados pelo descontraído e alegre Etienne Hugel. Riesling Hugel Jubilee 2007: mesmo sem utilizar a denominação Grand Cru, elabora seu vinho com uvas de Schoenenbourg. Complexo, mineral, petrolato, borracha e delicada fruta. Na boca, limpo, ótima acidez e elegante. Representado no Brasil pela World Wine.
Dopff au Moulin – Também localizada em Riquewihr, onde fomos recepcionados por Philippe Durst. Cremant Chardonnay 2008: delicioso Cremant, com acidez cortante, corpo médio e aromas marcados por frutas secas e avelãs. Representados no Brasil pela Mistral.

Todos os vinhos da Alsácia fazem parte de uma das suas três D.O.C. que regulamentam a produção da região:

AOC Alsace – Estabelecida em 1962, engloba 75% da produção local, da qual 92% refere-se a castas brancas. Nesta classe os rótulos mencionam o nome da variedade utilizada, a marca e, no caso de blends, os termos Edelzwicker (corte de várias variedades locais sem limitações) ou Gentil (corte com pelo menos 50% de vinhas nobres, como a Riesling, Muscat, Pinot Gris e/ou Gewurztraminer ). O rótulo pode conter também o vilarejo ou o vinhedo de origem das uvas.
AOC Alsac e Grand Cru – Estabelecida em 1975, essa classe contempla vinhos elaborados apenas com as quatro variedades nobres, existindo legislação específica para regular sua produção. Seu rótulo deve mencionar a variedade, a safra e o vinhedo, devendo este ser um dos 51 autorizados. É nesta AOC que se concentram os grandes vinhos da região e que representam apenas 4% da produção local.
AOC Cremad D’Alsace – Estabelecida em 1976, acolhe os espumante elaborados pelo método tradicional, nos quais a Pinot Blanc predomina acompanhada pela Pinot Gris, Pinot Noir e Chardonnay. Seu volume representa 21% da produção local. OBS: Dentro da OAC Alsace Grand Cru, existem duas subdenominações que fazem a cabeça dos apreciadores de bons vinhos doces:
Vendanges tardives
Vinhos doces elaborados com uvas sobremaduras colhidas semanas após a janela normal utilizada para vinhos secos. As uvas podem ou não ser bortytizadas e são consideradas como a compatibilização perfeita com o Foie Gras e sobremesas não muito doces. Os vinhos são produzidos principalmente com a Gewurztraminer, e menos frequentemente com a Pinot Gris, Riesling ou Muscat.
SGN (Selection de Grains Nobles) – Vinhos doces elaborados a partir de uvas sobremaduras atacadas pela Botytis Cinerea. Vinhos raros de grande estrutura, extremamente aromáticos e longos, normalmente tomados sozinhos como vinhos de reflexão ou acompanhando sobremesas. Em sua produção utilizamse as mesmas variedades do Vendanges Tardives.

Dicas sobre os vinhos alsacianos

Os Grand Crus são agradáveis para serem tomados em sua juventude, mas ficam ainda melhores com tempo de garrafa 5 a 10 anos, quando ganham com sua maturidade e expressam toda a sua complexidade olfativa.
Por serem vinhos delicados, manifestam seu melhor entre 8 e 10 graus; abaixo disso, perdem aromaticamente. Sua conservação deve ser feita em temperatura constante entre 10 e 15 graus e em posição horizontal.
As grandes safras foram: 1983, 1985, 1988, 1989, 1997, 2002, 2007, 2008, e 2009.

Dicas de harmonização

Sylvaner – Tradicionalmente com marisco, ostras, mexilhões, mas pode surpreender com fondue de queijo.
Pinot Blanc – Tradicionalmente com peixes e carnes brancas, mas prove-o também com quiches e queijos doces tipo Gruyere.
Riesling – Um dos mais ecléticos vinhos brancos, vai bem com peixes, carnes brancas e vermelhas, assim como cozidos sem muito tempero, surpreende também com sushi, pratos com toques cítricos e queijo de cabra.
Muscat – Um vinho adequado para aperitivos. Compatibiliza bem com verduras cozidas e cruas e com o delicioso, mas difícil em harmonização, aspargo.
Pinot Gris – Tradicionalmente vai muito bem com o Foie gras e com carnes brancas, mas surpreende com pratos à base de cogumelos.
Gewurztraminer – Um grande vinho para acompanhar queijos de sabor intenso na linha dos Munster, Livarot, mas casa muito bem com as perfumadas cozinhas asiática, hindu e marroquina.
Pinot Noir – Adequado para acompanhar carnes vermelhas.