4 de abr de 2012

Uma perola em meio a esta grande confusão chamada Salvaguarda

Acho que estamos todos ficando cansados de discutir este malfadado pedido de Salvaguardas dos vinhos brasileiros. Cada um de nos já se posicionou através das associações a que cada um pertence, no meu caso a SBAV, já colocamos nossa posição tanto na mídia como nas redes sociais, e finalmente já nos posicionamos em como agir no  caso desta solicitação passar e começara gerar seus resultados nefastos, como o aumento dos preços dos vinhos importados ( com exceção daquele protegidos pelo Mercosul)  e da implementação das antiquadas cotas de importação. Eu particularmente não mais comentarei, nem comprarei os vinhos nacionais, até que esta fase negra seja superada. Fiquei desanimado em ver a falta de dialogo da Ibravin e das outras entidades que entraram com a petição , fiquei muito triste em  ver muitos amigos desrespeitados apenas por terem suas convicções e se posicionarem por elas,  um desses foi o amigo Didu, sempre defensor dos bons vinhos brasileiros, enfim é um momento que não deve ser esquecido não, mas sim  servir de exemplo no futuro de como não deve tratar um assunto de tão grande importância.
 Tenho a impressão que o mundo do vinho não será mais o mesmo, pois muitas magoas permanecerão e a paz entre as partes demorará a ser restabelecida. Mas hoje em meio a esta bagunça toda tive o prazer de ler um desabafo publicado pelo próprio Didu Russo que considero uma perola e que tomo a liberdade de reproduzir, pois suas lembranças nos levam ao que realmente o mundo do vinho deveria ser. Obrigado Didu pela tua sensibilidade


ISSO É O VINHO
O Vinho é a “famiglia”, os amigos, a alegria e a sinceridade.

Me lembro do querido Toninho Czarmobay cantando feliz com o saudoso Cleber Andrade em altas madrugadas sinceras de amor de Amigos de verdade. Isso é o vinho.

Me lembro da Dona Glades na cozinha da antiga casa do Giuseppe Miolo, preparando o Pien e outras delícias da cultura local, e ao me ver uma semana após ter ido lá, me diz gostosa e sinceramente: “Ué? Você aqui de novo?...” Isso é o vinho gente.

Me lembro do Darci Miolo embriagado comigo, tarde da noite lá em Candiota, relembrando sua dura vida e seu desencanto como produtor de uvas, num passado tão recente, quando decidira largar tudo, comprar um caminhão e sair por aí, enquanto seu bravo e dedicado filho Adriano estudava vitivinicultura e voltaria para erguer a “famiglia”, transformando o nome Miolo neste orgulho nacional. Isso é o vinho gente.

Me lembro do Caio da Aurora, feliz e entusiasmado com os jovens que contratara, entre eles o querido Diego Bertolini que desenvolveu para a Aurora, o mini espumante e o evento Aurora Boreal... que falta faz o Caio meu Deus... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Sr. Plinio Pizzato, falando de seus vinhedos, da dura decisão de sair do julgo da Aurora e se transformar em um produtor independente e de sua alegria em ter transformado o Merlot brasileiro no que é hoje.

Ninguém se esquece do seu espetacular Merlot 1999 que agora merece o DNA 99. Foi ele quem deu a sinalização dessa casta hoje determinada na D.O. para o Vale dos Vinhedos. Sr. Plinio, que enfrentou a dura perda prematura de seu filho Ivo e ficou ereto diante da vida, fazendo seus deliciosos e autênticos vinhos... Sua humildade é uma lição de vida. Isso é vinho gente.

Me lembro do Idalêncio Angheben com seu incrível conhecimento, sua humildade, me contando sobre as castas que escolheu, plantou, e que agora colhe os resultados estupendos como o seu Barbera que surpreendeu até o Marc de Grazia... Isso é o vinho gente.

Me lembro dos pequenos ótimos produtores da Campanha Gaúcha, entusiasmados com seus belíssimos exemplares e a preços baratíssimos como o Rio Velho Tannat a R$ 12,00 e o Campos de Cima Primeiro Corte a R$ 10,00, para citar alguns. Me lembro dos excelentes vinhos de Anthony Darricarrère e sua simpatia. Vinhos franceses produzidos no Brasil. Isso é o vinho gente.

Me lembro da inacreditável família de Valter Pötter da Estância Guatambu, com sua elegância e amorosidade, montando uma vinícola exemplar para a filha. Isso é o vinho gente.

Me lembro do meu Amigo Pagliari e sua generosidade em repartir tantos ótimos vinhos evoluídos que ele teve o método, a disciplina e a gentileza de abrir comigo.

Me lembro da generosidade do Enio Fedderico em abrir diversas espetaculares garrafas do Nebbiolo de Viamão do incrível Guilhelmone. Isso é o vinho gente.

Me lembro do saudoso Saul Galvão dizendo sempre o que achava, não importando se agradava ou não. Também o Dr. Sergio de Paula Santos, doidão, velhinho, discutindo rabugento suas convicções e reconhecendo quando estava equivocado. Isso é o vinho gente.

Me lembro da deliciosa história do Paviani em sua infância passando pela cerca da então Granja União, para roubar umas uvas madurinhas... Me lembro da incrível recepção em Flores da Cunha para uma “Colación” numa pequena vinícola que começava a produzir vinhos finos. Tudo tão sincero e familiar. Isso é o vinho gente.

Me lembro do meu amigo José Alberto Zuccardi dizendo: “Didú, o vinho não é um negócio, é uma forma de viver...” Me lembro do Reinaldo De Lucca que quando me deu seu cartão de visitas estava escrito: “O vinho é o resultado do amor do homem com a vinha e nele devem estar identificados todos os seus valores”. Isso é o vinho gente.

Me lembro de Nicolás Joly dizendo: : ”Didú, um vinho biodinâmico pode até não ser um bom vinho, mas será sempre autêntico, isso é único, e não pode ser imitado” Isso é o vinho gente.

Me lembro de mesa de amigos, jornalistas de vinhos, nem todos com a mesma opinião, graças a Deus, mas todos felizes em torno da mesa, das taças e do produtor, felizes comemorando a vida, que vai passando... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Cabral emocionado descrevendo para poucos Amigos seletos, diversos vinhos do Porto 40 anos, na data em que comemorava 40 anos de dedicação sua a esse néctar dos Deuses. Isso é o vinho gente.

Me lembro da frase genial de Luiz Horta ao dizer que gostava de vinhos que traziam a paisagem engarrafada. Isso é o vinho gente.

Me lembro do João Valduga feliz e orgulhoso de seu Espumante Dona Maria em homenagem a sua mãe, no lançamento na Expovinis de 2011. Me lembro do saudoso Angelo Salton com aquela sua risada cativante e sua sinceridade, levando todos os jornalistas presentes na Fenavinho, que não me lembro o ano, para irmos ao Hotel Dall’Onder para tomarmos um “capeletini in brodo” e ficarmos todos até altas horas dando risadas e contando causos... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Ciro Lilla abrindo uma garrafa de L’Ermita de sua própria adega, vinho que ele não importava mais pelos altos impostos (custa lá fora € 1 mil!!), para degustarmos com o produtor Alvaro Espinoza... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Juscelino abrindo um Petrus de 40 anos para compartilhar com amigos, Isso é o vinho gente.

Me lembro da Lis e do Ramatis, trazendo um Porto de cem anos para brindarmos o aniversário de 1 ano da minha 1ª neta Lorena e ela degustando um golinho... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Irineo Dall’Agnol me tirando lágrimas ao servir seu estupendo e inigualável Espumante Estrelas do Brasil 2006 naquela paisagem do céu... me lembro de seu sócio o incrível e competente enólogo uruguayo Alejandro Cardozo falando com paixão e sinceridade das leveduras encapsuladas e seus resultados. Me lembro de sua amostra na Avaliação Nacional dos vinhos, a da Piagentini, que me fez suspirar e duvidar que fosse Piagentini, quando me sussuraram: Didú, agora tem um enólogo uruguayo lá que está mudando tudo... Isso é o vinho gente.

Me lembro da festa de cem anos da Salton, quando chorei tanto a incrível impiedade de Deus em retirar o Ângelo meses antes de comemorar sua glória. A festa foi o apogeu da emoção. Todos dançando, aquela alegria, Mario Telles embriagado e feliz, Carrara dançando como niguém imaginaria, Didú berrando ao lado do querido e espetacular tenor Dirceu Pastore, o fantástico colhedor de uvas com a garganta de Pavarotti... Isso é o vinho gente.

Me lembro de produtores humildes me olhando ao degustar seu vinho e esperando minha opinião, como se ela valesse algo... que lindo e singelo momento. Isso é o vinho gente.

Me lembro de tantos amigos que fiz, bebendo, degustando, trocando ideias, aprendendo. Me lembro do sábio amigo Daniel Pisano que me disse: “Didú, beba o vinho e olhe o dono do vinho. Eles são iguais, se forem diferentes há algo errado...” Isso é o vinho gente.

Me lembro de Miguel Angel Cerdà com seu olhar perdido, flutuante, olhando a taça e dizendo: “Quibia es um pais imaginário donde vivem las personas buenas... e Didú vive allí comigo...” emocionante. Isso é o vinho gente.

Me lembro de moças que se tornaram muito mais bonitas e muito mais sensuais do que eram, ao final do encontro de degustação... Isso é o vinho gente.

Me lembro de uma viagem a convite do Ibravin que fiz para a República Checa, onde vi estrangeiros admirando o nosso bom vinho equanto comemoramos juntos, aquela alegria de nosso sucesso... Isso é o vinho gente.

Me lembro de Luis Pato orgulhoso a contar de suas duas colheitas na mesma safra, com seu incrível espumante Baga Rosada e depois seu Baga tranquilo... dele falando de sua alegria em fazer um vinho de baga tradicional para beber com seu neto... Isso é o vinho gente.

Me lembro do Vences do Vega Sauco contando o “dito español” diz que: “vinha nova gosta de madeira velha e vinha velha gosta de madeira nova, como as mulheres...” Isso é o vinho gente.

Me lembro de tantas coisas que quase daria um livro. Me lembro por exemplo de dois ditados italianos que as moças não deve, saber. Um diz que “Futti! Futti!!, che Dio perdona a tutti” e outro que diz: “Acqua fresca, vino puro e cazzo duro”... hahahaha Isso é o vinho gente.

Alegria, amigos, famiglia, vida!!! E se você chegou até aqui em meu texto, pode entender o motivo de minha incrível tristeza por esse momento que está transformando o vinho em algo que ele não é.

O Vinho não é falsidade.
O Vinho não é tramar por baixo do pano.
O Vinho não é egoísmo.
O Vinho não é traição.
O Vinho não é inimizade.
O Vinho não é tristeza.
Gente, o Vinho não é isso que estamos vivendo.

4 comentários:

  1. Grazie por compartilhar amico Tommasi. Isso ee o vinho e não o que estão fazendo, gerando a inimizade a cizânia e a tristeza. Bacione.

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  2. Teu post foi um oasis no deserto.Tantos bons momentos que não podem ser maculados por uma postura erronea e que tantos males deverá causar. Depois virá o arrependimento

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  3. Tenho boas lembranças das viagens que fiz ao sul. Conheci algumas dessas vinícolas citadas quando ainda eram uma casinha com um parreiral atrás. Tive contato com gente humilde que cresceu e hoje é gente grande no mundo do vinho. Mas infelizmente tantas recordações românticas serão soterradas pela ganância de alguns produtores e pela minha frustração de ver o que eles estão fazendo com o mundo do vinho. Uma pena...

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  4. Pois é Paulo, eu tambem tenho histórias como aquela do Darcy Miolo perdendo o seu tempo para gentilmente me ajudar a comprar uvas e a achar transporte das mesmas para São Paulo para que pudessemos produzirmos nosso primeiro vinho, parafraseando o Didu. Isso é o vinho... Acho que a somatoria destas pequenas lembranças que todos temos é que ajudaram o vinho nacional a chegar no patamar onde chegou, e agora essa postura egoista e arcaica querendo apagar todas as boas lembranças que temos TRISTE

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